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Postado em 25/10/2016 às 9:10

Coquetel Molotov e a beleza da comunhão na música

Icon Por Antonio Oiticica

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Festival Coquetel Molotov aconteceu em Recife nesse Sábado (22) e possibilitou a 7 mil pessoas conhecerem e reconhecerem mais de 27 bandas e artistas da música independente do Brasil e do mundo.

Há na música salvação. Ela pode nos fazer felizes, ser parceira na hora da tristeza e principalmente criar conexões. E não imagino melhor lugar que um festival para que isso aconteça. Sábado, portanto, mergulhei nesse universo com o No Ar Coquetel Molotov, na Coudelaria Souza Leão, no bairro da Várzea, em Recife. E durante um dia inteiro de bons sons, gente amigável e um espaço incrível para estar, colecionei belas impressões na bagagem.

O No Ar Coquetel Molotov, festival de música independente que completou 13 edições em 2016, acontece desde 2004 na capital pernambucana servindo de vitrine para os novos nomes da música brasileira e shows relevantes que não frequentam tanto o mainstream no Brasil, além de trazer artistas da cena internacional e que não teríamos a chance de ver facilmente. Nesse ano manteve-se a excelência da programação, tendo iniciado no dia 7 de outubro com prévias, mostra de cinema e oficinas, além da realização do festival em outras cidades, como Belo Jardim e Belo Horizonte. Em Recife, com data única, neste último sábado (22), nomes como Céu, BaianaSystem, Boogarins e outros, possibilitaram ao público de mais de 7 mil pessoas acompanhar diversas performances espalhadas pelos cinco palcos na enorme área da Coudelaria Souza Leão.

Entre a irreverência presente dos grupos do Som Na Rural, carro todo iluminado que circula com shows itinerantes por Recife e que estacionou como palco no Molotov, e o frisson do Palco Velvet, que abrigava os mais esperados shows, ver ao vivo o que é o No Ar Coquetel Molotov é único. Não à toa falo que é num festival que podemos vivenciar a plenitude que a música pode oferecer. E ainda mais quando essa música é nova para nós. Logo no começo no dia, bandas como Luneta Mágica, do Amazonas, e Los Nastys, da Espanha, surpreenderam, mesmo que seus nomes não estejam entre os mais conhecidos do line-up.

Dentre as já esperadas bandas conhecidas, shows de Céu e Boogarins foram ótimos. A cantora paulistana trouxe o repertório de seu novo álbum, Tropix, e provou que é sim uma artista para figurar entre as favoritas do público. O quarteto goiano fez um dos melhores shows do festival, com a banda muito afinada, conexão com o público e excelente apresentação do baterista Ynaiã Benthroldo. Os gringos foram também destaque, como os franceses do Moodoïd, banda formada por quatro mulheres e somente um homem, de som com influência Techno e estética baseada no brilho e purpurina.alagou_i_hate_flash_molotov_2016_3

E com certeza, um dos melhores de todo o festival foram os americanos da Deerhoof, que nos fizeram contestar nossa noção de como se deve dar um show. Constante dinâmica, solos fora da escala, improviso, o agudo vocal da baixista Satomi Matsuzaki, a liberdade no desempenho do baterista Greg Saunier, músicas sem final e começo. Uma banda fora do padrão musical pop que estamos acostumados. Outro destaque foi o alagoano Cleiton Rasta, muito esperado no Som na Rural, tocando seu repertório de melôs. E mesmo que adicionando músicas como Malandramente e Baile de Favela, não atrapalhou sua boa participação no Molotov.

Foram cinco palcos (Velvet, Sonic, Som na Rural, Aeso e Palco Experimental), com 27 bandas, mais as do palco experimental, uma feirinha com estúdio de tatuagem, loja oficial do festival, venda de roupas e acessórios e até salão de beleza, parque com food trucks, uma instalação artísticas com tecido acrobático e vários espaços de convívio em que as pessoas estenderam cangas ou simplesmente sentaram na grama para conversar, tirar fotos, ficarem juntas.

Por conta da enorme estrutura, o Coquetel Molotov conviveu com problemas também, principalmente filas de espera. Ao chegar à Coudelaria Souza Leão, era preciso entregar o ingresso, tomar uma van e andar por um caminho que levava à área de shows. A partir do fim da tarde, o trânsito tomou conta da Avenida Caxangá, principal via de acesso ao festival. Na entrada, grandes filas para poder utilizar o serviço de vans que transportavam 15 pessoas por vez. Entre meia noite e uma da manhã, os food trucks não tinham mais comida, deixando algumas pessoas na mão.

Mesmo que com estas falhas na organização, o Coquetel Molotov promoveu um evento de grande porte e com apresentações musicais do universo da música independente. Ter a chance de ver num mesmo espaço bandas como Baleia, O Ventre, Jaloo, Karol Conká, Céu, Boogarins, Inner Kings é bastante interessante. Festivais são locais que nos permitem interagir, não só uns com os outros, mas com diversos gêneros musicais. Estar em comunhão.

Acredito ser daí, de permitir que as diferenças convivam, de poder curtir o punk viajante da Rakta, o melô de Cleiton Rasta, o suingue do BaianaSystem, a delicadeza de Céu, que nos salvamos com a música. Em um festival, entramos querendo ver esse ou aquele show e acabamos sempre conhecendo uma banda nova, um pessoal massa, um lugar diferente. E voltamos mais purificados para o mundo rotineiro que vivemos de segunda à sexta.

Voltar de um festival do tamanho do Coquetel Molotov nos faz sonhar, e como maceioense e vivente da música, encerro minha resenha vislumbrando que poderíamos um dia ter um festival desse porte por aqui também. Enquanto isso, continuemos produzindo e visitando os lugares fantásticos que ela nos proporciona.

 

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